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indo para a semana número sei lá quanto

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Faz pouco tempo que comecei a dar plantões, mas parece até que tem mais tempo. Salvei algumas vidas, frustrei algumas outras, enchi muito o saco dos meus colegas, discutindo casos em que me sentia insegura. Vivi bastante coisa, mas ao mesmo tempo me pergunto quando vai passar essa sensação de medo do que está por vir. Quando eu vou começar a ir em paz? Estou aqui arrumando minha mochila com medo. E se eu não souber lidar com o que surgir amanhã?  As vezes acho que a enfermagem passa por cima de mim, e isso me deixa ressentida. Mas também se não fosse por elas eu estaria perdida. Rimou sem querer, mas foda-se o eco, eu até gostei. Comecei a escrever este texto um mês depois da minha formatura. Ele ficou aqui perdido no meio dos rascunhos e é muito engraçado - talvez desesperador - que a sensação continue aqui. Quase a mesma. Quase é bom. E hoje minha vida está infinitamente diferente de como estava naquela época, mais ou menos um ano atrás. Não tô nem mesmo mais na mesma cidade. Est...

Alien azul

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E lá estavam as estrelas, perfeitamente visíveis. Gostaria de saber identificar constelações, parecia ser um céu propício pra deitar na areia da praia, olhar pra cima e dar nome às estrelas. Não deitei na areia, apenas olhei pra cima por um breve instante que pareceu ter durado muito tempo. Mas com certeza não foi uma contemplação demorada, essa é só a impressão que dava diante da atmosfera do festival. Um negócio meio etéreo. Apesar de que eu estava completamente sóbria.  Estava em frente a um dos palcos, rodeada por pessoas várias desconhecidas. Estranhamente confortável no meio da multidão. Tocava um techno que eu nunca havia escutado antes: Era um grupo de músicos instrumentais que tocavam sopro e percussão junto com batidas de música eletrônica. Technobrass. Surreal de bom. Pulava ao som do techno e via a beleza da lua agora já entremeada de nuvens. A banda toca uma música chamada Praia. Propício. Em meio às batidas da música as palhas do coqueiro ao meu lado também começam a ...

Livro | Primeiro eu tive que morrer - Lorena Portela

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A vida é feita de ciclos. Ou de fases. Ou de ondas. Ou de mergulhos. Quando digo isso estou me misturando com o livro. Me misturando com essa história de uma mulher que poderia ser eu. Uma mulher adoecida por uma busca de perfeição profissional. Adoecida por traumas passados. Impedida de viver sua afetividade devido ao medo de repetir os mesmos erros, de recair nas mesmas armadilhas. A protagonista sem nome, a qual acompanhamos nesse romance de estreia de Lorena Portela, é "obrigada" a tirar um período de férias após um burnout. É uma história de cura e redescoberta, que cai em alguns clichês, trata de alguns temas pesados a partir da abordagem do sofrimento psíquico, mas que tem uma narrativa muito leve e gostosa.  A história junta várias mulheres em seus traumas e alegrias. Mulheres diferentes, vindas de diferentes lugares sociais e geográficos, que se curam juntas. Acho bonita a irmandade que se forma num processo de ressignificação da dor sem cair numa romantização desse ...

Tudo

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Completei um aninho. Dia 30 de novembro foi meu aniversário. Faz um ano que me formei em medicina. Um ano que tenho trabalhado como médica nas emergências e postos de saúde da vida. Faz um ano que minha vida mudou completamente. Que tive que fazer várias escolhas difíceis, das quais não me arrependo. Pelo contrário, me sinto bastante orgulhosa da estrada que me trouxe até aqui. Por tudo. Saí da universidade bem imatura, e tenho aprendido bastante na prática. Tanto com as situações que preciso enfrentar junto com os pacientes, quanto com as dificuldades no trato com as equipes com as quais trabalhei. Passei por tantos lugares aqui no interior para o qual escolhi retornar. O interior me ensinou muito. Me ensinou a ser tudo. Tudóloga. Não tem sido fácil, meus amigos. Me sinto feliz com todas as mudanças que fizeram com que eu me tornasse mais forte. Não vou fingir que tem sido só alegrias. Esse trajeto de 1 ano também tem muita mágoa, ressentimento, raiva e tristeza. Pelas limitações técn...

Este texto é sobre o internato

Como toda a trajetória dessa reta final seguiu um percurso tão perfeito. Começando por Saúde Mental, já ampliando nossa clínica nas redes, rizomas, raízes. Plantando nossos pés no chão e nos aproximando daquilo de mais pessoal e íntimo de cada ser humano que nos tocou e nos permitiu criar vínculo. Vínculo. Nunca ouvi tanto essa palavra na vida do que durante esse rodízio. Obrigada especialmente a Lidiane por todo o acolhimento e Joyce por me fazer gostar de psicanálise. Em seguida veio a clínica cirúrgica. Espaço o qual, confesso, não me trazia boas expectativas. Mas combinei comigo mesma: vamo de peito aberto. E assim fui, e me surpreendi com o quanto passei a gostar da área, principalmente a fritação da emergência cirúrgica, e um pouco menos das cirurgias que se prolongavam além do esperado. Existe beleza em curar feridas (tenho o registro delas em diversos álbuns no meu celular, ossos do ofício), e existe beleza na resposta aguda. E lá veio a área para a qual eu me achava menos qual...

Livro | Almas Fartas - Matheus Tévez e Ruan Passos

Eu tenho uma satisfação enorme em prestigiar o trabalho dos amigos. Já conhecia Ruan Passos de outros carnavais - e são joões também -, e de seu conto "Diário de um quarentenado". Inclusive já iniciamos um projeto juntos que incluía um blog e um canal no youtube de comédia e cultura pop (creia). O projeto não foi pra frente, mas Ruan seguiu em frente. E para a surpresa - porém não muita - de todos se enveredou pela literatura e pela dramaturgia, atuando em espetáculos, inclusive de improviso, e publicando seus contos. Até que "Almas Fartas" surgiu com a parceria com Matheus Tévez. Agora vamos de história.  A sinopse do livro não entrega muita coisa acerca do enredo, dando um ar de mistério à leitura, o que instiga a curiosidade. Trata-se de uma história não linear, e eu adoro esse tipo de história que fornece escopo para a imaginação ir preenchendo as lacunas entre cada lapso temporal. Queremos saber quais foram os fatos que levaram os personagens até aquele ponto j...

Diabinho

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Sempre me senti nervosa com a ideia de ter que escrever um texto de agradecimento para pôr no santinho do convite de formatura. Até que chegou o momento de enviar o bendito texto. Inicialmente me ative às generalidades sempre presentes nesse tipo de texto, mas não me senti bem. Não era eu. Me desprendi das expectativas e finalmente consegui escrever algo que fizesse com que eu me sentisse satisfeita. Mas eu tinha direito a apenas 1800 caracteres. Ora, mil e oitocentos caracteres não me pareceram suficientes para escrever tudo o que gostaria, ou agradecer a todos a quem gostaria, ou de manifestar os motivos de minha gratidão. Então me desprendi inclusive da formatação e dos mil e oitocentos caracteres e escrevi tudo o que senti vontade. Quando passei no vestibular, uma amiga me perguntou se eu tinha certeza que faria medicina, já que eu era uma pessoa tão sensível, e a área era supostamente tão fria. Apesar de ter insistido, e de saber das boas intenções do questionamento, essa reflexão...