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Este texto é sobre o internato

Como toda a trajetória dessa reta final seguiu um percurso tão perfeito. Começando por Saúde Mental, já ampliando nossa clínica nas redes, rizomas, raízes. Plantando nossos pés no chão e nos aproximando daquilo de mais pessoal e íntimo de cada ser humano que nos tocou e nos permitiu criar vínculo. Vínculo. Nunca ouvi tanto essa palavra na vida do que durante esse rodízio. Obrigada especialmente a Lidiane por todo o acolhimento e Joyce por me fazer gostar de psicanálise. Em seguida veio a clínica cirúrgica. Espaço o qual, confesso, não me trazia boas expectativas. Mas combinei comigo mesma: vamo de peito aberto. E assim fui, e me surpreendi com o quanto passei a gostar da área, principalmente a fritação da emergência cirúrgica, e um pouco menos das cirurgias que se prolongavam além do esperado. Existe beleza em curar feridas (tenho o registro delas em diversos álbuns no meu celular, ossos do ofício), e existe beleza na resposta aguda. E lá veio a área para a qual eu me achava menos qual...

Livro | Almas Fartas - Matheus Tévez e Ruan Passos

Eu tenho uma satisfação enorme em prestigiar o trabalho dos amigos. Já conhecia Ruan Passos de outros carnavais - e são joões também -, e de seu conto "Diário de um quarentenado". Inclusive já iniciamos um projeto juntos que incluía um blog e um canal no youtube de comédia e cultura pop (creia). O projeto não foi pra frente, mas Ruan seguiu em frente. E para a surpresa - porém não muita - de todos se enveredou pela literatura e pela dramaturgia, atuando em espetáculos, inclusive de improviso, e publicando seus contos. Até que "Almas Fartas" surgiu com a parceria com Matheus Tévez. Agora vamos de história.  A sinopse do livro não entrega muita coisa acerca do enredo, dando um ar de mistério à leitura, o que instiga a curiosidade. Trata-se de uma história não linear, e eu adoro esse tipo de história que fornece escopo para a imaginação ir preenchendo as lacunas entre cada lapso temporal. Queremos saber quais foram os fatos que levaram os personagens até aquele ponto j...

Diabinho

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Sempre me senti nervosa com a ideia de ter que escrever um texto de agradecimento para pôr no santinho do convite de formatura. Até que chegou o momento de enviar o bendito texto. Inicialmente me ative às generalidades sempre presentes nesse tipo de texto, mas não me senti bem. Não era eu. Me desprendi das expectativas e finalmente consegui escrever algo que fizesse com que eu me sentisse satisfeita. Mas eu tinha direito a apenas 1800 caracteres. Ora, mil e oitocentos caracteres não me pareceram suficientes para escrever tudo o que gostaria, ou agradecer a todos a quem gostaria, ou de manifestar os motivos de minha gratidão. Então me desprendi inclusive da formatação e dos mil e oitocentos caracteres e escrevi tudo o que senti vontade. Quando passei no vestibular, uma amiga me perguntou se eu tinha certeza que faria medicina, já que eu era uma pessoa tão sensível, e a área era supostamente tão fria. Apesar de ter insistido, e de saber das boas intenções do questionamento, essa reflexão...

vinte e quatro horas que valeram por pelo menos quarenta e oito

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Ando meio monotemática, eu sei. Mas a vida anda meio monotemática mesmo. Tenho vivido para trabalhar e descansar e trabalhar e descansar. E as vezes nem descanso direito, mas estou a ponto de mudar isso. Hoje vim falar do primeiro plantão do ano, para que eu não me esqueça que se eu consegui suportar aquele dia, eu sou capaz de qualquer coisa. Primeiro de janeiro já é um dia historicamente conturbado nas emergências por aí. Porque o pessoal de férias e em comemoração acaba se envolvendo em acidentes e coisa e tal. Para além disso ainda estamos vivendo um surto de influenza que está lotando os pronto socorros de tudo quando é canto com gente com síndrome gripal. Muita gente com sintomas leves, mas também uma quantidade razoável de gente com sintomas mais preocupantes - principalmente idosos com falta de ar. Justamente por causa dessa maldita gripe a emergências tem contado com um médico extra para dar assistência às pessoas gripadas pelo menos durante metade do plantão. Nesse primeiro d...

[silêncio]

Lá estava eu atendendo as dezenas de fichas que recebo no plantão. Eis que no meio da rotina recebo a ficha de um homem jovem com dor de cabeça, sem comorbidades, aparentemente sem sinais de gravidade. Chamei. Enquanto eu questionava e examinava ele,  percebi uma postura diferente e resolvi perguntar de novo se ele tinha alguma doença ou condição de saúde mental.  Era isso. Ele tinha depressão e tinha parado o tratamento por conta própria.  Acolhi o melhor que pude, no tempo que a emergência permite, e então abaixei os olhos para prescrever.  Então ele tocou a minha mão.  Então eu parei o que estava fazendo e olhei nos olhos dele. [silêncio] Por quanto tempo vamos sustentar esse toque e esse silêncio? Deixei que ele decidisse. Eu vi tanta profundidade naquele olhar que me senti desconfortável.  Tanta profundidade que cheguei perto de chorar. Em parte porque senti que também fui vista, e portanto vulnerável.  [silêncio] Ele recolheu a mão. Olhou para ba...

Sobrevivi

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Outro dia desabafei dizendo como a finalização da faculdade não estava me trazendo bons sentimentos, e o quanto eu me sentia insegura para estar nos meus primeiros plantões. Bom, aqui estou após a minha primeira semana de plantonista. Sobrevivi. Consegui emprego em dois lugares, o que está sendo ótimo. Acho melhor do que ter vários plantões espalhados nas pequenas cidades dos arredores. Primeiro plantão de todos, na emergência de um hospital de uma cidadezinha aqui próxima. Conferindo doses de todos os medicamentos prescritos, e justamente por isso demorando mais do que o esperado nos atendimentos. Eu conversava demais também, mas me corrigi porque percebi que não dá pra fazer isso na emergência. A equipe que me salvou várias vezes, todo mundo muito parceiro, compensando minha inexperiência. Deu certo. Após um parto, estabilização de pacientes baleados, uma barata retirada de um ouvido e várias outras coisinhas... sobrevivi. Dois dias depois lá estava eu pronta para duvidar de minha ca...

o post iria se chamar /vergonha literária/ mas no meio do texto descobri que não

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No ano passado eu consegui ler bastante, atingi minha meta literária. Bom, na verdade eu não tinha nenhuma meta, mas se eu tivesse com certeza teria atingido. Foi um reencontro com minha eu-leitora, em grande parte por causa da aquisição do kindle, mas também por causa do tempo "livre", já que eu estava total de quarentena e completamente de saco cheio das redes sociais (ainda estou, porém menos). Li vinte e sete livros de nichos bem diversificados, e consegui fazer resenhas de vários. Esperava que em 2021 eu conseguisse ler pelo menos um livro por mês. Sim, dessa vez estipulei a meta de doze livros. E surpreendentemente consegui ler quatorze. Eu não imaginava que tivesse conseguido ler tanto.  Nos últimos meses eu li bem pouco, demorei demais para finalizar as leituras, e li alguns livros bem curtos em HQ, conto ou ensaio, por exemplo. Escrevi bem menos resenhas também, em parte porque não tinha tempo, e em parte porque queria me expor menos.  Inclusive, por falar em exposiç...